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Multimercados reagem, mas retorno acima do CDI exige diligência

Depois de um período de resgates e frustração com fundos ativos, a classe volta a aparecer na conversa de alocação. Para o banker, o ponto não é vender performance recente, mas separar consistência, risco e aderência ao mandato.

Os fundos multimercados voltaram ao centro da conversa de investimentos após um início de 2026 mais favorável para estratégias ativas. O movimento ocorre em um ambiente de Selic ainda elevada, ciclo de afrouxamento monetário em curso e maior dispersão entre juros, bolsa, câmbio e ativos internacionais.

A pauta de mercado aponta fundos da categoria entregando retornos relevantes em abril, em alguns casos equivalentes a múltiplos do Certificado de Depósito Interbancário, CDI. A leitura editorial do IBV, porém, exige uma ressalva: até o fechamento desta matéria, em 13 de maio de 2026, não foi possível confirmar em fonte oficial aberta uma base padronizada com o ranking nominal citado na pauta-gatilho. Por isso, a informação deve ser tratada como sinal de mercado a ser validado em documentos dos próprios fundos, lâminas, regulamentos, demonstrativos e dados oficiais da indústria.

A fotografia agregada da indústria é mais verificável. Segundo a ANBIMA, a captação líquida dos fundos de investimento somou R$ 159,2 bilhões entre janeiro e março de 2026, o melhor resultado para um primeiro trimestre em cinco anos. O patrimônio líquido da indústria chegou a R$ 10,8 trilhões no período.

Nos multimercados, a entrada líquida foi de R$ 11,2 bilhões no primeiro trimestre de 2026, revertendo a saída de R$ 30,1 bilhões registrada no mesmo intervalo de 2025. A própria ANBIMA, contudo, informou que aproximadamente R$ 11 bilhões dessa captação vieram de um único fundo. Esse detalhe muda a interpretação: não se trata, necessariamente, de uma retomada ampla da classe, mas de uma reabertura seletiva de fluxo.

A rentabilidade também mostra dispersão. No primeiro trimestre de 2026, o melhor desempenho entre os multimercados foi da categoria long & short direcional, com alta de 3,36%. No mesmo intervalo, o Índice de Hedge Funds ANBIMA, IHFA, recuou 0,05%, enquanto a média dos multimercados avançou 1,7%. O dado reforça que a classe não pode ser tratada como bloco homogêneo.

A explicação passa pelo mandato. Há multimercados macro, long & short, quantitativos, balanceados, estruturados, com maior ou menor uso de derivativos, exposição cambial, bolsa local, juros nominais, juros reais e ativos internacionais. Dois fundos dentro da mesma prateleira podem ter riscos completamente diferentes, ainda que apareçam sob a mesma categoria comercial para o cliente.

O pano de fundo monetário é central. Em 29 de abril de 2026, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 14,50% ao ano. O Banco Central manteve linguagem de cautela, com projeção de inflação de 4,6% para 2026 e de 3,5% para o quarto trimestre de 2027 no cenário de referência. Esse ambiente favorece estratégias que acertam direção e inclinação da curva, mas pune carteiras excessivamente posicionadas quando a comunicação do regulador ou o cenário externo muda.

A Taxa DI, usada como referência para o CDI, é apurada e divulgada pela B3 com base em operações de Depósitos Interfinanceiros prefixados de um dia útil entre instituições de grupos econômicos distintos. Isso torna o CDI uma referência operacional robusta para comparação de fundos no curto prazo, mas não resolve a pergunta principal: qual risco foi tomado para superar esse benchmark.

Na leitura IBV, retorno de quatro vezes o CDI em um mês não deve ser usado como chamada comercial isolada. O banker precisa perguntar de onde veio o ganho: posição em juros, bolsa, câmbio, crédito, arbitragem, evento específico, proteção desmontada ou alavancagem. Sem essa decomposição, performance vira argumento frágil e aumenta o risco de inadequação ao perfil do cliente.

Em alta renda e private, multimercados podem ocupar espaço de diversificação e geração de alfa, especialmente quando a carteira está concentrada em pós-fixados. Mas a alocação precisa conversar com liquidez, horizonte, tributação, volatilidade esperada e drawdown histórico. Para clientes corporate, agro ou patrimonializados, a classe também pode funcionar como componente tático, desde que não comprometa caixa, garantias, compromissos de curto prazo ou política de investimentos.

A conversa consultiva deve separar três pontos: retorno absoluto, retorno ajustado ao risco e papel na carteira. Um fundo que vence o CDI em uma janela curta pode não ser adequado para um cliente que não tolera marcação a mercado. Da mesma forma, um multimercado com mês negativo pode continuar cumprindo seu mandato se a estratégia estiver preservada e o risco estiver dentro dos limites previstos.

 

  • Em março de 2026, a indústria de fundos acumulava R$ 159,2 bilhões de captação líquida no ano.

  • No primeiro trimestre de 2026, o patrimônio líquido da indústria chegou a R$ 10,8 trilhões.

  • Entre janeiro e março de 2026, os multimercados captaram R$ 11,2 bilhões.

  • No mesmo período de 2025, os multimercados haviam registrado saída líquida de R$ 30,1 bilhões.

  • No primeiro trimestre de 2026, a categoria long & short direcional rendeu 3,36%.

  • No primeiro trimestre de 2026, o IHFA recuou 0,05%.

  • Em 29 de abril de 2026, a Selic foi reduzida para 14,50% ao ano.

A agenda agora passa pela reunião do Copom marcada para 16 e 17 de junho de 2026, pela evolução das expectativas de inflação e pelos próximos boletins da indústria de fundos. Para o banker de alta performance, a oportunidade não está em repetir ranking de rentabilidade, mas em fazer curadoria: entender mandato, risco, liquidez, consistência e função da estratégia dentro do portfólio.

Fontes oficiais consultadas

  • ANBIMA. Captação líquida dos fundos no primeiro trimestre de 2026. 13 de abril de 2026.

  • ANBIMA. Dados de rentabilidade por tipo de fundo no primeiro trimestre de 2026. 13 de abril de 2026.

  • ANBIMA. Metodologia e critérios do Índice de Hedge Funds ANBIMA, IHFA. Consulta em 13 de maio de 2026.

  • Banco Central do Brasil. Comunicado do Copom. 29 de abril de 2026.

  • B3. Metodologia de apuração da Taxa DI. Consulta em 13 de maio de 2026.

Redação IBV. Instituto Bancário de Valor.
Somos o presente, formamos o futuro.
posibv.com.br

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Depois de um período de resgates e frustração com fundos ativos, a classe volta a aparecer na conversa de alocação. Para o banker, o ponto não é vender performance recente, mas separar consistência, risco e aderência ao mandato.

Os fundos multimercados voltaram ao centro da conversa de investimentos após um início de 2026 mais favorável para estratégias ativas. O movimento ocorre em um ambiente de Selic ainda elevada, ciclo de afrouxamento monetário em curso e maior dispersão entre juros, bolsa, câmbio e ativos internacionais.

A pauta de mercado aponta fundos da categoria entregando retornos relevantes em abril, em alguns casos equivalentes a múltiplos do Certificado de Depósito Interbancário, CDI. A leitura editorial do IBV, porém, exige uma ressalva: até o fechamento desta matéria, em 13 de maio de 2026, não foi possível confirmar em fonte oficial aberta uma base padronizada com o ranking nominal citado na pauta-gatilho. Por isso, a informação deve ser tratada como sinal de mercado a ser validado em documentos dos próprios fundos, lâminas, regulamentos, demonstrativos e dados oficiais da indústria.

A fotografia agregada da indústria é mais verificável. Segundo a ANBIMA, a captação líquida dos fundos de investimento somou R$ 159,2 bilhões entre janeiro e março de 2026, o melhor resultado para um primeiro trimestre em cinco anos. O patrimônio líquido da indústria chegou a R$ 10,8 trilhões no período.

Nos multimercados, a entrada líquida foi de R$ 11,2 bilhões no primeiro trimestre de 2026, revertendo a saída de R$ 30,1 bilhões registrada no mesmo intervalo de 2025. A própria ANBIMA, contudo, informou que aproximadamente R$ 11 bilhões dessa captação vieram de um único fundo. Esse detalhe muda a interpretação: não se trata, necessariamente, de uma retomada ampla da classe, mas de uma reabertura seletiva de fluxo.

A rentabilidade também mostra dispersão. No primeiro trimestre de 2026, o melhor desempenho entre os multimercados foi da categoria long & short direcional, com alta de 3,36%. No mesmo intervalo, o Índice de Hedge Funds ANBIMA, IHFA, recuou 0,05%, enquanto a média dos multimercados avançou 1,7%. O dado reforça que a classe não pode ser tratada como bloco homogêneo.

A explicação passa pelo mandato. Há multimercados macro, long & short, quantitativos, balanceados, estruturados, com maior ou menor uso de derivativos, exposição cambial, bolsa local, juros nominais, juros reais e ativos internacionais. Dois fundos dentro da mesma prateleira podem ter riscos completamente diferentes, ainda que apareçam sob a mesma categoria comercial para o cliente.

O pano de fundo monetário é central. Em 29 de abril de 2026, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 14,50% ao ano. O Banco Central manteve linguagem de cautela, com projeção de inflação de 4,6% para 2026 e de 3,5% para o quarto trimestre de 2027 no cenário de referência. Esse ambiente favorece estratégias que acertam direção e inclinação da curva, mas pune carteiras excessivamente posicionadas quando a comunicação do regulador ou o cenário externo muda.

A Taxa DI, usada como referência para o CDI, é apurada e divulgada pela B3 com base em operações de Depósitos Interfinanceiros prefixados de um dia útil entre instituições de grupos econômicos distintos. Isso torna o CDI uma referência operacional robusta para comparação de fundos no curto prazo, mas não resolve a pergunta principal: qual risco foi tomado para superar esse benchmark.

Na leitura IBV, retorno de quatro vezes o CDI em um mês não deve ser usado como chamada comercial isolada. O banker precisa perguntar de onde veio o ganho: posição em juros, bolsa, câmbio, crédito, arbitragem, evento específico, proteção desmontada ou alavancagem. Sem essa decomposição, performance vira argumento frágil e aumenta o risco de inadequação ao perfil do cliente.

Em alta renda e private, multimercados podem ocupar espaço de diversificação e geração de alfa, especialmente quando a carteira está concentrada em pós-fixados. Mas a alocação precisa conversar com liquidez, horizonte, tributação, volatilidade esperada e drawdown histórico. Para clientes corporate, agro ou patrimonializados, a classe também pode funcionar como componente tático, desde que não comprometa caixa, garantias, compromissos de curto prazo ou política de investimentos.

A conversa consultiva deve separar três pontos: retorno absoluto, retorno ajustado ao risco e papel na carteira. Um fundo que vence o CDI em uma janela curta pode não ser adequado para um cliente que não tolera marcação a mercado. Da mesma forma, um multimercado com mês negativo pode continuar cumprindo seu mandato se a estratégia estiver preservada e o risco estiver dentro dos limites previstos.

 

  • Em março de 2026, a indústria de fundos acumulava R$ 159,2 bilhões de captação líquida no ano.

  • No primeiro trimestre de 2026, o patrimônio líquido da indústria chegou a R$ 10,8 trilhões.

  • Entre janeiro e março de 2026, os multimercados captaram R$ 11,2 bilhões.

  • No mesmo período de 2025, os multimercados haviam registrado saída líquida de R$ 30,1 bilhões.

  • No primeiro trimestre de 2026, a categoria long & short direcional rendeu 3,36%.

  • No primeiro trimestre de 2026, o IHFA recuou 0,05%.

  • Em 29 de abril de 2026, a Selic foi reduzida para 14,50% ao ano.

A agenda agora passa pela reunião do Copom marcada para 16 e 17 de junho de 2026, pela evolução das expectativas de inflação e pelos próximos boletins da indústria de fundos. Para o banker de alta performance, a oportunidade não está em repetir ranking de rentabilidade, mas em fazer curadoria: entender mandato, risco, liquidez, consistência e função da estratégia dentro do portfólio.

Fontes oficiais consultadas

  • ANBIMA. Captação líquida dos fundos no primeiro trimestre de 2026. 13 de abril de 2026.

  • ANBIMA. Dados de rentabilidade por tipo de fundo no primeiro trimestre de 2026. 13 de abril de 2026.

  • ANBIMA. Metodologia e critérios do Índice de Hedge Funds ANBIMA, IHFA. Consulta em 13 de maio de 2026.

  • Banco Central do Brasil. Comunicado do Copom. 29 de abril de 2026.

  • B3. Metodologia de apuração da Taxa DI. Consulta em 13 de maio de 2026.

Redação IBV. Instituto Bancário de Valor.
Somos o presente, formamos o futuro.
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